SER ARTISTA: JOSÉ DE GOUVÊA – Uma vida contada por muitas linguagens

Neste artigo, a colunista Rosangela Politano, fotógrafo Lucas Cruz e o Jornalista Sebastião Malaquias, trazem uma homenagem ao Sr. José de Gouvêa, renomado poeta, compositor, pintor, desenhista, professor, ator, cenógrafo e roteirista, confira esta linda história

 

Coluna SER ARTISTA, por Rosângela Politano

 

 

Mais do que uma entrevista, foi uma manhã de encontros e afetos. Eu e o fotógrafo Lucas Cruz fomos recebidos com carinho por José de Gouvêa ao lado da companheira Vera, em sua casa, entre histórias, memórias, bichinhos,  seu jardim, risos e muita arte.

 

Conversar com José de Gouvêa é perceber que sua história não cabe em uma única definição. Ele é poeta, compositor, pintor, desenhista, professor, ator, cenógrafo e roteirista. Mas, acima de tudo, é alguém que encontrou na arte uma maneira de olhar o mundo, guardar suas lembranças e transformar a própria vida em criação.

 

José nasceu em São Luís do Paraitinga, no interior de São Paulo. É filho de Benedito Jacinto de Gouvêa e Maria Isabel de Azevedo Gouvêa, é o sétimo entre oito irmãos. Desde menino, descobriu no desenho uma forma de observar as pessoas, os lugares e tudo aquilo que despertava sua curiosidade.

 

Ao falar de sua infância, José deixa transparecer que o desenho não foi apenas uma atividade, mas uma companhia. Era por meio dele que registrava o que via e também o que imaginava. Mais tarde, essa habilidade o levou a se tornar professor de desenho e matemática.

 

José é pai de Denise e Marco Aurélio, avô de quatro netos, Gabriela, Isabela, Helena e Pedro,  além de Meline a neta  do coração filha  de Jéssica que é filha de sua  companheiro Vera Lúcia de Araújo.

 

Aos 86 anos, vive cercado por plantas, animais, lembranças e obras. Seu jardim, os bichos e as histórias da família fazem parte de seu cotidiano e também de seu universo artístico.

 

Quando José fala sobre sua vida, fica evidente que suas criações nascem das experiências simples,  uma flor, uma lembrança, uma conversa, uma pessoa querida ou uma paisagem que permaneceu dentro dele.

 

 A pintura como memória

Na pintura, José retrata pessoas conhecidas, figuras populares e personagens ligados à cultura, à publicidade e ao cinema. Também realizou autorretratos, registrando em suas telas diferentes momentos de sua trajetória.

 

Ele participou de várias exposições, mas, entre tantas lembranças, faz questão de falar com carinho da exposição individual realizada em sua homenagem, em Lindóia, cidade que lhe concedeu o título de cidadão lindoiano.

 

Organizada e curada por Rosângela Politano, a mostra teve um significado especial para José. Mais do que apresentar suas obras, aquela exposição fez com que ele se sentisse reconhecido e acolhido. O cuidado e o carinho presentes em cada detalhe tocaram profundamente seu coração.Para ele, aquela mostra foi uma celebração de sua vida, de sua história e de todas as linguagens que escolheu para se expressar.

 

 A literatura e o reconhecimento

José também realizou um Encontro Literário em Lindóia, viabilizado por meio de um prêmio da PNAB — Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. A iniciativa permitiu que sua produção literária chegasse a mais pessoas e criou um espaço de encontro entre sua experiência e o público.

 

Falar de seus poemas é também falar de suas lembranças. José escreve sobre o amor, a saudade, a esperança, a natureza e a renovação. Seus versos carregam a simplicidade de quem observa atentamente a vida e encontra significado nas pequenas coisas.

 

Sua trajetória foi reconhecida ainda no Festival de Cinema de Lindóia, onde recebeu uma homenagem especial. O troféu entregue aos premiados passou a levar seu nome: Troféu José de Gouvêa.

 

Esse reconhecimento representa a importância de sua contribuição para a arte, o cinema e a cultura, mantendo seu nome ligado à memória do festival e à produção cultural de Lindóia.

 

 A flor que virou poesia

Entre seus poemas, “Azaleia” ocupa um lugar especial. José conta que se inspirou em uma planta que existia no colégio onde trabalhou. Um dia, a flor desapareceu, mas permaneceu viva em sua memória.

 

A azaleia deixou de ser apenas uma planta. Transformou-se em lembrança, saudade e poesia, expressa neste soneto escrito no estilo clássico.

 

 

Ao ouvir José falar sobre esse poema, percebe-se que a flor também fala sobre a permanência. Algumas coisas desaparecem do mundo, mas continuam existindo dentro de nós.

 

Música, hinos e pertencimento

José também compôs músicas e hinos. Entre seus trabalhos estão o hino de Suzano, o hino do 32º Batalhão da PM e o hino, não oficial,  de Aracaju, “Cheiro da Terra”  em parceria com Cláudio Miguel.

A música revela outro aspecto de sua personalidade: o vínculo profundo com a terra, com a natureza e com os lugares que fazem parte de sua história.

Em seus versos, José não fala apenas de uma paisagem. Fala de pertencimento, de raízes e do desejo de permanecer próximo daquilo que reconhece como seu.

 

 Teatro, cinema e televisão

No início dos anos 2000, José frequentou a Faculdade da Terceira Idade e participou de apresentações teatrais. Foi nesse período que escreveu e apresentou a peça “A Herança”.

Depois, conheceu Daniel Sampaio, da Gênesis Filmes, e passou a viver novas experiências no cinema. Participou dos filmes “Soldado por Acaso” e “Cadê o Dinheiro?”, contracenando com Canarinho e com Roberto Marquis  conhecido como o Guarda Juju, de “A Praça é Nossa”.

José e Roberto também participaram juntos do filme “Velhos Leles da Cuca”, como protagonistas.

Outra experiência importante foi sua participação no curta-metragem “Nem Sapato Eu Tenho”, uma história de Natal dirigida por Daniel Sampaio. José não apenas atuou, como também escreveu o roteiro e compôs a trilha sonora.

Sua experiência na televisão começou quando fez um teste para interpretar um personagem caipira. Entre aproximadamente 70 candidatos, conquistou o primeiro lugar e participou de seu primeiro comercial, do Licor de Cacau Xavier.

 

Depois, realizou outros trabalhos, entre eles comerciais do Fluviral e do Banco do Brasil. Ao todo, fez aproximadamente 20 testes e participou de cinco comerciais.

 

 

 Uma vida que continua criando

José nunca se limitou a uma única forma de expressão. Em sua trajetória, foi professor, desenhista, pintor, poeta, compositor, ator, roteirista e participante de produções cinematográficas e televisivas.

Mas talvez sua maior característica seja a disposição para continuar experimentando. José não separa a arte da vida. Para ele, criar é uma maneira de permanecer atento, de conversar com o mundo e de transformar aquilo que viveu em algo que possa ser compartilhado.

Em uma de suas falas, ele resume sua maneira de encarar a vida:

 “Nunca duvide daquilo que você consegue fazer. Nunca pense: isso eu não consigo.”

Essa frase parece nascer de sua própria história. José construiu seu caminho experimentando, aprendendo e aceitando novos desafios. Cada linguagem artística abriu uma nova possibilidade de expressão.

Ser artista, para José, é olhar com atenção. É encontrar poesia em uma flor, em um animal, em uma lembrança ou em uma conversa. É permitir que a vida continue surpreendendo.

Quando pensa em como deseja seguir seus dias, José encontra nas palavras da musica “Cheiro da Terra” considerada hino de Aracaju, uma resposta profunda:

“Eu quero o cheiro das manhãs da minha terra, 

 ver o sol nascer na serra 

 e o vento norte soprar. 

 Eu quero mesmo é ficar 

bem juntinho dela…”

 

Esses versos dizem muito sobre o homem e o artista que José de Gouvêa se tornou. Depois de percorrer tantos caminhos, experimentar tantas linguagens e guardar tantas histórias, seu desejo é permanecer perto de suas raízes.

Sentir o cheiro da terra, contemplar o amanhecer, ouvir o vento e estar próximo da natureza, das lembranças e das pessoas que ama.

Bem juntinho dela.

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Rosangela Politano

Rosangela Politano

Produtora Cultural, Empreendedora, Diretora do Projeto Cor-Ação, Artista Plástica, Ilustradora, Pesquisadora de Cultura Tradicional e Curadora. (@rosangelapolitano)

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